Falar em psicanálise contemporânea pode soar, à primeira vista, redundante. Afinal, toda psicanálise não deveria ser contemporânea ao seu tempo? No entanto, o uso do termo não é apenas cronológico. Ele aponta para um deslocamento histórico, teórico e clínico que atravessa a psicanálise nas últimas décadas e que altera profundamente a forma como ela se organiza, se pensa e se pratica. A psicanálise contemporânea emerge, antes de tudo, de um descontentamento. Um descontentamento com o endurecimento dogmático das escolas, com a filiação identitária a nomes e com disputas institucionais que, muitas vezes, passaram a importar mais do que os próprios problemas clínicos. Em diferentes contextos (Europa, Estados Unidos, América Latina ) esse movimento não surgiu de modo coordenado, mas como resposta comum a um mesmo impasse: a sensação de que a psicanálise havia perdido algo de seu caráter originalmente inquietante, experimental e subversivo. O que se coloca em jogo, então, não é a negação da tradição psicanalítica, mas sua reorganização. A psicanálise contemporânea não rompe com Freud nem com os grandes desenvolvimentos do século XX; ela rompe, isso sim, com a ideia de que a fidelidade a um autor ou a uma escola possa funcionar como critério de verdade clínica. O eixo deixa de ser a ortodoxia teórica e passa a ser a capacidade de escuta, de elaboração e de resposta às formas atuais de sofrimento psíquico. Nesse sentido, a contemporaneidade da psicanálise não se define por um novo sistema teórico unificado. Pelo contrário: ela se caracteriza por um pluralismo assumido. Diferentes modelos (freudianos, kleinianos, winnicottianos, relacionais, intersubjetivos, psicodinâmicos, neuropsicanalíticos ) passam a coexistir não como escolas fechadas, mas como programas de investigação que dialogam, se tensionam e, em alguns casos, se complementam. O foco desloca-se do a que escola você pertence? para que problema você está tentando compreender? Outro […]